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Através do espelho Ao conversar do seu trabalho, Risk Hazekamp fala quase imediatamente nas reacções do público. Fica surpreendida que a maior parte das pessoas acreditem e pensem que o quo vêem é real. Mesmo quando o fundo édobrado, mesmo quando a luz é incrivelmente artificial muitos pensam que as fotografias foram tirados nos Estados Unidos. Tal não é verdade; Hazekamp tirou-as em Roterdão. Ela é o modelo em primeiro plano, contra um fundo projectado, um pouco como no retrato do século XIX. A representação que ela procura não é a do decoro mas a da fantasia. Quando tinha quinze anos fez uma viagem à América com os pais e tirou uma fotografia das Montanhas Rochosas. Ainda hoje a utiliza para projecção. Não sente a necessidade de voltar a esse lugar, é suficiente tê-lo visto uma vez. Além do mais, receia que o efeito fosse demasiado dramático se se fotografasse a si própria na paisagem americana. Hazekamp está interessada num mundo de fantasia, num mundo habitado por heróis, em posters de filmes representando um mundo ideal. No seu trabalho, investiga como os heróis são descritos, simultaneamente .corteja. e .dá uma piscadela de olho. a esse mundo. Não encara os seus trabalhos em fotografia como auto-retratos, antes como imagens compostas, fotografias que têm a sua vida própria. Uma vida que se parece com a nossa mas que não o é. ...Contar-te-ei todas as minhas ideias sobre a Casa através do Espelho. Em primeiro lugar, há o quarto que podes ver através do espelho - exactamente como a nossa sala de visitas, simplesmente aí as coisas passam-se de maneira. Quando me ponho em cima de uma cadeira, posso ver tudo o que há nele - tudo, excepto o que fica por trás da lareira. Oh! Como eu queria ver esse espaço! Quero tanto saber se têm fogo no Inverno: não podes adivinhar, sabes, a não ser o nosso fogo esteja a arder e então fumo aparece desse quarto também - mas isso pode ser tão-só fingimento nosso, fazer de conta que eles têm também uma lareira. Ela fala sobre o processo de criação das fotografias, explica como surgem e discorre sobre o seu fascínio pelos aspectos técnicos do seu trabalho. No atelier de Roterdão, faz experimentação com projecções e focos de luz. Aqui pode ousar um gesto ou uma expressão facial. Precisa de estar sozinha. Não permite que ninguém veja como trabalha as suas poses impressionantes. Lentamente, a imagem que tem em mente emerge. Só quando a alcança, permite então que outros vejam o resultado desta pesquisa. Um mundo de fantasia que se parece com o nosso mas que não o é. Então ela diz-me que trabalhou durante uma estadia em Espanha, procurando dia após dia o local exacto. Adoptando repetidamente uma pose idêntica em paisagens diversas, de cada vez sob uma luz diferente. Esta repetição permite-lhe abandonar a sua preocupação com o modo como aparece; pode assim concentrar-se em absoluto nos aspectos técnicos. O que se passa à sua volta já não a preocupa; é então que a fotografia perfeita emerge. Estes são os melhores momentos do seu trabalho. Sente-se atraída pela paisagem espanhola, porque os westerns foram aí realizados, em substituição da América. Agrada-lhe a artificialidade desta construção. As fotografias aí realizadas são tão pouco realistas como as que fez em estúdio. Um sonho é cativante porque nele qualquer pessoa pode projectar os seus próprios pensamentos e ideias. Paisagens desoladas atraem-na particularmente. Estas não são temas em si, mas podem inspirar um cenário . ser material para uma imagem. Nas suas fotografias, o 'cowboy' desempenha o papel principal como habitante de uma paisagem. Para Hazekamp ele é o derradeiro 'cliché'. Na realização cinematográfica, o western tem as regras mais rígidas: um homem com um chapéu branco, o outro com um chapéu preto agem de acordo com um padrão inflexível. Ela gosta do facto de tudo ser previsível e de sabermos exactamente o que se está a passar. Quando lhe pergunto como justifica esta afirmação, responde que é mais agradável sabermos o que vai acontecer. Sorri e diz que é sempre maravilhoso saber de antemão que tudo vai terminar bem. O 'cowboy' sempre consegue a rapariga mais bonita, salva a aldeia e parte . sozinho. Todos se lembram dele com ternura e podem idealizar o herói à sua maneira. A série de fotografias realizada em Espanha e no sul de Portugal parecem significar um corte em relação ás fotografias encenadas em estúdio. Aqui a vulnerabilidade opõe-se à idealização. Os homens têm manchas de sangue e as roupas rasgadas. O video que Hazekamp fez deste homens é igualmente notável no seu registo de gestos e olhares nervosos. Como podem estar calmos se estão a tremer de medo? Longe está o ídolo de Hollywood, aqui está a realidade pronta a revelar-se terrível. Os rapazes estão alinhados, vestindo fatos semelhantes. No seu pavor são cativantes. Em algum momento também eles se tornarão heróis; agora só o medo está nos seus olhos. É extraordinário que as indumentárias dos toureiros sejam tão femininas: casacos bordados, meias cor-de-rosa, sapatos de ballet, chapéus engraçados. De facto parece que regressam ao papel que a natureza deu ao macho na espécie - o sedutor com as cores mais brilhantes, as plumagens mais longas, os chifres mais imponentes. Ridículas demonstrações de poder, tal como nos 'cowboys' de Hollywood. Oh! Tenho a certeza que há coisas maravilhosas dentro dele! Vamos fingir que há um modo de o atravessar, seja como for... Hazekamp é como Alice no País das Maravilhas. Visita um mundo que se parece com o nosso mas que não o é. Um mundo onde cada coisa tem o seu padrão, onde tudo termina em bem. Porém ela é também como Lewis Carrol, o escritor que nos mostra um outro mundo - um lugar maravilhoso onde temos de acreditar no que vemos. E se finalmente compreendermos que o que vemos não é o que pensamos ser, aí poderemos ver o que desejarmos. Piet de Jonge, Novembro 2001 2001 - Director Modern Art / Collection Museum Boijmans Van Beuningen Rotterdam 2003 - Head of Collections and Displays Museum Kröller-Müller Otterlo Citações de: Através do espelho e o que Alice aí encontrou, capítulo 1 |